Rádio Gondomar FM
Cronicas Padre Antonio Vidinha

 

Hoje, logo na primeira hora , ressoou para mim o canto do aleluia. O meu coração exultou de alegria. Senti novas energias carregadas de esperança. O tilintar das campainhas deu a sua ajuda. Todavia os meus olhos não cabem neste retângulo que se chama Portugal. Tornei-me universal. Enquanto vivo as alegrias pascais, muitos, por esse mundo além, não conseguiram passar da sexta feira santa. Para esses tal dia é uma eternidade. Durante as poucas horas que dormi, sonhei com umacarrinha, com corpos desfeitos, viajei até Bruxelas, vi um pedaço de ferro extraído duma pessoa vítima duma bomba.
Acordei sobressaltado. Dei-me conta que não fora apenas sonho.
Disse a mim próprio: Porque te queixas, António? Não passas dum mimalho.
Desculpem-me. Neste dia de Páscoa só deveria falar de assuntos alegres. Mas o mundo parece-me um edifício em ruínas .
Ouço em cada esquina falar apenas de crise, bancos, dívida pública, lutas entre os galos partidários, falanges direitas e esquerdas.
Mas não se fala do alicerce. Tudo é movediço, tudo parece construído sobre areia. 
Muitas vezes na igreja paroquial lanço este repto:
Quem se lembrou do alicerce deste templo?
Ele está lá metido na terra, silencioso, mas decisivo para a solidez do edifício. Os belos altares e a harmonia do conjunto dependem em primeiro lugar do alicerce.
Nessa primeira hora da madrugada pascal o coro cantou: “ a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular.” Essa pedra angular, para quem percorre o caminho da fé, é o Ressuscitado.
Mas quem será capaz de lhe abrir a porta?
O “Politique d’abord !” (antes e acima de tudo a política), da autoria de Maurras, envenena a atmosfera que respiramos

 

03 de Abril de 2016

 

Há dias senti-me um pouco na pele do bom samaritano. Encontrei uma pessoa prostrada na berma da estrada da vida. Não eram feridas do corpo mas talvez mais dolorosas.
Essa pessoa estava roída de remorsos, devido a erros graves que lhe pesavam muito. Autoflagelava-se e tinha medo dos castigos de Deus. Percebi que o deus que habitava nela era ainda o deus Júpiter dos romanos, patrão dos outros deuses e deusas, o qual habitava lá no Olimpo e com um simples pestanejar fazia tremer o mundo.
Abeirei-me com todo o respeito dessa alma e procurei curar-lhe as feridas, não com vinho e azeite, porque esse analgésico não era o remédio adequado. Ajudei-a a fazer com que as escamas caíssem e visse quem é Deus. Então descobriu que Deus é Amor, só amor e nada mais. 
Para que as feridas não reabrissem deitei-lhe uma mistura de bálsamo vindo céu: "As minhas delícias é estar com os filhos dos homens, deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, não igual à do mundo; o vosso coração se alegrará e ninguém poderá arrancar-vos essa alegria".
Sentindo-se curada, levantou-se. O seu rosto era outro. Disse simplesmente: obrigado, padre, já não sinto o peso enorme que trazia.
Tal pessoa foi à sua vida respirando felicidade. Eu não fiquei menos feliz

 

 

10 de Abril de 2016

Uma aguarela dos tempos que correm

Na Alemanha, um homem tinha um filho na escola. Na sala de aula havia também um homem pregado numa cruz. Podia lá ser ! O filho ficaria para sempre traumatizado. Então fez uma queixa ao diretor. Aquele homem pregado na cruz está a traumatizar o meu filho. Jornais e televisões aproveitaram logo o candente assunto. No parlamento foi decidido: arranquem-se esses símbolos . Os meninos não podem ficar traumatizados nem podemos ferir os sentimentos doutras religiões.
A moda pegou. Passou para a República Checa, para a França e praticamente para todo o Ocidente inclusive Portugal.
Nunca vi um simples sinal incomodar tanta gente. Mas não vale a pena içar bandeiras de guerra.
O curioso é constatar o que aconteceu a seguir na República Checa. 
Madona, rainha do pop, foi dar um espetáculo em Praga. Esta deusa dançaricava e contorcia-se de todas as maneiras. Como pano de fundo, havia uma cruz(que não traumatizava) cheia de luzinhas a cintilar e, diante do palco, uma multidão imensa erguia as mãos em movimento contínuo.
Nada de novo. No auge da revolução francesa de 1789, os sedentos de sangue e vingança foram à catedral de Notre Dame, retiraram a lindíssima imagem de Maria e colocaram no mesmo local uma mulher da rua.
Já agora, se não sabem, fiquem a saber. Na Suíça, os alunos muçulmanos foram dispensados de cumprimentar com aperto de mão as professoras. É que ficavam impuros, digo eu 
Da parte das aguerridas femen que invadem catedrais soltando palavrões e insultando bispos católicos, nem pio.

 

01 de Maio de 2016

Um retrato ao vivo

Há dias veio ao meu encontro uma jovem mãe. Pretendia batizar o seu bebé. Marcou-se o dia e hora. Reparei que vinha com ar cansado e avancei com a delicadeza e respeito de quem abre a porta dum sacrário: Está com ar de cansada? - Estou. Cheguei a casa muito fatigada. Tenho uma profissão exigente. Além disso não dormi quase nada. Tive que que me levantar várias vezes de noite para sossegar o bebé.
É muito difícil harmonizar a profissão com o cuidar do seu filho, não é? - É Sim, sobretudo em certas ocasiões. Mas com a ajuda de Deus e da minha mãe, que já está aposentada, lá vou conseguindo. Despedimo-nos. Aquela jovem mãe lá foi à sua vida. 
Creio que este Flash é comum a milhares e milhares de mães. Ainda não me saiu da cabeça aquela mãe simples, cansada mas corajosa, disposta a dar a vida pelo seu bebé.
Através duma mãe entramos no mundo. Na hora da saída, se ainda é viva, lá está ela ao nosso lado, tal como aconteceu com a Mãe de Jesus. Mas mesmo que esteja já do outro lado desta vida, é muito frequente o moribundo inconscientemente balbuciar: ó mãe!
Deus é o Amor infinito. O amor materno, que não tem que ser necessariamente biológico, é o melhor espelho desse amor infinito de Deus. 
Há pouco, deparei com uma fotografia meia perdida da minha própria mãe. Parecia sorrir serenamente para mim. Apenas sabia assinar o nome, mas ensinou-me mais que todos livros do mundo.

O milagre de uma rosa

Ninguém pode viver sem dinheiro. Nem Cristo o dispensou. Até foi acusado pelo fisco de não pagar o imposto devido ao templo.
Mas o ser humano que tanto fala em liberdade facilmente transforma a riqueza no seu deus preferido e deste modo acaba por a perder. Quantas vidas destruídas pelo bezerro de ouro que se transforma num deus cruel e insaciável !
É certo que não podemos deixar de pensar nos milhões de pessoas que vivem em miséria absoluta. Todavia o mesmo ser humano não está feito para adorar o bezerro. 
O poeta Rilke conta-nos o seguinte episódio:
Em Paris depositava regularmente uma moeda no chapéu que uma mendiga lhe estendia. Ela ficava imperturbável como se não tivesse alma. 
Certo dia, o poeta ofereceu-lhe uma rosa. Nesse momento o seu rosto iluminou-se. Pela primeira vez Rilke viu que a mendiga tinha sentimentos. A mulher sorriu e afastou-se. Durante dez dias deixou de mendigar… Vejam! Uma rosa matou a “fome” aquela mulher durante dez dias.
Façam o favor de cuidar da árvore das patacas mas não deixem de cultivar muitas rosas à sua volta.

 

Uma mãe judia apresentou o seu filho ao rabino. O rabino, querendo medir os conhecimentos religiosos do rapazito, lançou-lhe este desafio : dou-te uma moeda, se me disseres onde está Deus. Resposta imediata da criança. Eu dou-te duas, se me disseres onde Ele não está. 
Este episódio faz-me lembrar as respostas inesperadas de muitas crianças. Devo dizer que sempre me afirmaram que Deus está em toda a parte. Implicitamente tenho-o pregado ao longo da vida. Porem um dos maioresteólogos dos tempos modernos* , de quem o Papa Francisco disse há pouco “que fazia teologia de joelhos”, ajudou-me ver a questão por outro prisma muito prático. Deus de fato não está em toda a parte. Onde reina o ódio, o “olho por olho e o dente por dente”, onde há guerras armadas ou não armadas, Deus não está nem pode estar presente, porque Deus é o amor e a paz. Ora o ódio e o amor são tão incompatíveis como a luz e as trevas. 
Acabei por me sentir um pouco mais feliz, por ter mandado colocar num determinado local, a primeira frase dum antigo hino cristão: “onde há caridade e amor aí está Deus.”

*Bento XVI

 

Uma fotografia

Consegui tirar uma fotografia ao mundo. Servi-me duma máquina original: A torre de babel. Descrevo-a em poucas palavras.
Os homens , para mostrar o seu poder, decidiram erguer uma torre tão alta, tão alta que chegasse do solo ao firmamento. Então, mãos à obra. Foram colocando tijolo sobre tijolo durante meses e meses. Já se ia a perder de vista... Aconteceu porém o inesperado. Sem se saber porquê, esboroou- se, ficando reduzida a um montão de tijolos e lixo.
A partir daí os homens nunca mais se entenderam. Foi a confusão total. O termo “babel” significa isso mesmo. A mensagem é obvia. Cada povo tem a língua que lhe é própria, mas não há maneira de os cidadãos se entenderem. A língua é a mesma, todavia o linguajar muda de cabeça para cabeça, de harmonia os mais diversos interesses e ambições. O mundo passou a ser uma aldeia, transformado numa babel. Terá sido assim desde o início? - Talvez . Portugal situa-se nesta aldeia. Não sou velho do Restelo nem profeta da desgraça. Haverá sempre um resto de bom senso que nos salva e o dedo divino está lá embora não pareça. Pena é que nesta cavalgada da História fiquem esmagados milhões de seres humanos, como regra, os mais desprotegidos

 

 

Neste domingo, vou falar ainda dum menino. É um menino muito misterioso e corajoso. Vou desvendar esse mistério: quem é que ainda não ouviu exclamar “o rei vai nu”?
Nas minhas últimas férias, levei, como companheiro, um livro de contos do imortal escritor dinamarquês, Hans Christian Andersen. A tradução é da responsabilidade do Círculo de Leitores. Revisitei atentamente o seu mais conhecido conto.
Para enquadrar o menino - mistério, recordo o essencial do mesmo conto.
Um rei (na referida tradução, um imperador) adorava vestes novas. Uns hábeis intrujões venderam-lhe, bem como à sua coorte, um fato invisível. O rei e os cortesãos, bem sabiam que tinha sido ludibriados, mas há que manter a fachada.
Houve um deslumbrante desfile. Uma imensa multidão aclamava sua majestade. Todos porém haviam descoberto que tal veste não existia mas, daquela multidão, alienada e subserviente, ninguém teve a coragem de gritar a verdade e dizer que a famosa veste não passava duma mentira tecida apenas de hipocrisia.
Aos reis e imperadores deste mundo quem tem a coragem de dizer a verdade?
O tal menino, esse sim, na espontaneidade que lhe é própria, exclamou:
O rei vai nu! 
Toda a gente ficou de olhos esbugalhados.
Este menino, permaneceu sempre menino, não morreu e agora percorre o mundo, porque há ainda muitos reis e imperadores a quem não se diz a verdade nem eles a querem ouvir.
Segundo uma fonte por mim contactada, virá qualquer dia a Portugal. E como não é capaz de fazer discursos, apenas voltará a gritar “o rei vai nu.”
Só não me disseram o dia em que vinha. Estejam atentos.

 

 


Ia eu a caminho da viatura, numa praça do Porto. A tarde já caía e com ela as sombras da noite. A poucos metros de distância, deparei com dois adolescentes. Um jovem e uma jovem. Precipitei-me num juízo de condenação: Estes começam cedo. Querem imitar os mais velhos - pensei. 
Pareciam estar desnorteados. Ao lado havia um café e um supermercado. Hesitavam em entrar ora no café ora no supermercado mas não entraram.
Quando passei ao lado deles, pareceu-me que ele me terá dirigido algumas palavras. Não entendi o quê nem se na verdade seriam para mim. Continuei a breve caminhada e, de repente, um golpe de luz me iluminou. Percebi as palavras que o rapaz havia dito. Eram para mim: “Uma esmolinha, pela sua saúde”. Censurei-me a mim próprio. Deveria ter parado. Estavam naquela idade em que é frequente fugirem de casa porque não se sentem amados. Filhos de famílias desfeitas? Teriam fome? Porque me pediram a mim uma esmola e não pediam a outras pessoas?
Ainda pensei em voltar para trás mas não o fiz.
Na berma da estrada da vida, há muita gente caída, de todas as idades. Faltam samaritanos. Ainda hoje ouço o pedido daquele adolescente ao qual não dei resposta, nem sequer a esmola duma palavra amiga.
Fiquei ao menos com a mais uma lição: Não tens o direito de julgar quem quer que seja, mesmo que fosse o maior criminoso do mundo, porque “se soubesses a razão últimas das coisas até das estrelas terias pena.”


Navegando na onda do passado domingo, vou apresentar-vos um quadro muito raro e maravilhoso. 
Nas férias, entrei num restaurante. O solícito empregado indicou-me uma mesa. Não poderia ter melhor sorte. Muito perto, uma família saboreava o seu almoço. Não tinha aspeto de rica. Tudo indicava que vivia limpamente, ganhando o pão com o suor do seu rosto. Era constituída por cinco pessoas. O papá, num dos braços, segurava um pequerrucho, o qual de vez em quando esperneava. Com a outra mão, metia uma colher de alimento na própria boca e outra na do pequenito. Junto da cadeira da mamã estava uma menina dos seus três anitos, sorrindo e irradiando pura alegria. Já tinha a barriguinha satisfeita. A mãe porém ainda lhe dava a provar do seu próprio prato, o que a fazia sorrir ainda mais.
Mesmo pertinho da minha mesa, estava a quinta pessoa: um (a?) bebé, que no seu carrinho, dormia tranquilamente. Nem um gemido se ouvia. Por ali pareciam andar anjos invisíveis.
Quando me sentei, a mamã apressou-se a afastar o carrinho para mais longe. Não deixou de me lançar um discreto e misterioso olhar. Estava, terá pensado, a incomodar. 
Quase me fugia este apelo: minha senhora, deixe-o estar aqui pertinho. Deus também se fez bebé e nem por isso deixou de ser quem é.
Devo acrescentar que me senti muito pequenino diante da beleza deste quadro.

 



 

Autor:

Postada em: 28/03/2016

 

 

 

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